Domingo Negro

Não sou adepto (ou adeto?) de futebol, nem simpatizante, nem merda nenhuma. Vejo um ou outro jogo em mundiais e pouco mais. Acho um desporto chato e não me identifico quando ouço um pivot de telejornal a dizer barbaridades como “Portugal inteiro está a vibrar com a Seleção!!!”. Lamento informar, mas apenas vibro quando tenho o telemóvel no bolso a receber uma chamada. E se estiver a dar um jogo de tutebol, terei a televisão sintonizada num dos 180 outros canais disponíveis. Mas estou-me a desviar logo no início…

Domingo foi um dia muito triste realmente. Mesmo sendo indiferente ao futebol, acho muito bonito que haja muita gante que festeje, celebre e vibre (de facto… ou fato?) com a coisa da bola. É uma alegria dos vencedores e é válida, até porque é a única coisa que ganham com isso. Contente estarão clube e jogadores, com renovados prémios e projeção de imagem a nível internacional. Desvio-me novamente….

Regressando ao tema: dia triste, muito mesmo. Dos confrontos que existiram no Marquês, que acredito serem bastante inferiores à festa; às murraças arremessadas por um asno a uma família de adeptos do benfica, culminando no saque do armazém do Vitória de Guimarães. Estes episódios são suficientemente ilustradores de como, da figura de autoridade à figura do cidadão, algo de muito errado se passa.

Primeiro temos o asno de farda, que agride pelo menos dois adultos em frente a duas crianças (até está equlibriado, é um trauma para cada par). Já se disse que a criatura em questão já tem historial de violência gratuíta. É daqueles casos em que a farda não faz o homem, porque o homem é mediocre para usá-la. Quer-me parecer que é uma pessoa que está do lado errado das grades, mas adiante. Para equilibrar aquela majestosa besta, temos o seu oposto, o agente que foi dar um abraço (ou tentar proteger o miudo) quando o seu pai levava uns sopapos na boca. É bonito e bom existam homens desses na PSP, pois eles é que são o exemplo a seguir. Infelizmente, quem impera nesta situação, é a besta.

Notícia

http://www.jn.pt/live/Atualidade/default.aspx?content_id=4575324

Depois, no extremo oposto temos os cidadãos. E aqui encontramos o video do saque ao armazém do Vitória de Guimarães. É vergonhoso ver o à vontade com que as pessoas roubam, apenas armados do sorriso mais rasgado, da alegria mais genuína. É um bocadinho como sacar uns torrents, mas em formato analógico. O único incómodo das pessoas parece ser o facto (fato?) de não conseguirem levar mais coisas, por um menor ataque de consciência ou por não terem levado uma mala. Até porque não é todos os dias em que podemos levar umas bolas de futebol e uma chuteiras novas para ensinar desporto aos meninos. Naquele armazém nenhum menino fez xixi nas calças nem chorou ao ver os roubos, mas se calhar era o que devia ter acontecido…

Video

http://www.jn.pt/live/Atualidade/default.aspx?content_id=4575324

Domingo foi um dia negro… tão negro, que resolvi fazer o IRS.

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Sobre a caução

A caução é aquela coisa que não se percebe muito bem quando inserida no conceito de justiça. Que me peçam caução quando quero arrendar uma casa, até compreendo. Pedem-me para dar um valor adiantado, caso decida partir a casa toda, ou sair de repente sem dar satisfações. É uma segurança.

Mas quando a caução surge para alguém que é preso, sair em liberdade, isso é que me faz alguma confusão. Talvez não faça a mais ninguém, até porque estamos habituados a ver em filmes e séries, aqueles injustiçados a quem pagam a caução, e que podem assim perseguir o verdadeiro criminoso de forma a limpar o seu bom nome e demonstrar que afinal, a justiça foi feita.

No entanto, a mensagem que é enviada é muito mais simples: mesmo que sejas acusado de um crime e preso, tens sempre uma saída: dinheiro. E nem precisa de ser um suborno… nem chega a ser uma multa (não fosse o alegado criminoso fugir da prisão, apenas para levar uma multazinha pelo seu comportamento maroto). A caução é declaradamente uma maneira de sair da prisão, da forma mais legal possível, desde que se tenha dinheiro. Ou seja, um escape para os ricos, uma utopia para os pobres.

Nunca compreendi a sua razão, pelo menos de um ponto de vista da justiça e mesmo da lógica. Uma coisa é certa: desde que tenhas dinheiro, podes sair à vontade, mesmo com sangue nas mãos e dinheiro sujo no bolso. E quem tem uma Dona Inércia, tem tudo.

IRS – os últimos dias

À semelhança dos incêndios nos meses de Julho a Agosto, outra certeza portuguesa é a de que, no final de um prazo de entrega de IRS, os serviços entopem.

Acabo de ouvir as declarações do Sr. António Domingues de Azevedo, bastonário da CTOC (Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas). Diz o senhor que o governo conhece o problema e teima e não resolvê-lo, talvez por isso resultar em futuras multas aos contribuintes que não entregam a declaração do IRS a tempo.

Realmente existe pelo menos um problema: as pessoas tem um mês (sim, 30 dias, porque podem fazer a declaração ao fim de semana e entregar num dia de semana, por exemplo) para preencher e entregar a dita declação. Portanto crê o Sr. Domingues de Azevedo que 30 dias não chegam. Ora bem, este senhor é, digamos, uma besta. E representa um largo número de bestas que povoam este país. Longe de mim defender um governo no qual não votei e não acredito; longe de mim defender o sistema de taxas e impostos presentes neste país; mas neste caso, temos a representação da mentalidade desse espécime que é o Tuga: que se queixa de uma coisa que é também consequência da sua negligência e mesmo estupidez.

Se o sistema entope no final do prazo (faltam entregar sensivelmente 500mil declarações), é porque uma larga fatia da população deixa tudo para o final. Depois podem-se queixar dos serviços não funcionarem? Podem dizer que isto é uma vergonha? Não. Podem é tentar deixar de ser bestas, ou como li num artigo muito bem escrito e cheio de ironia, podem deixar de ser pobres:

“O Raio dos Pobres” – Jornal Público

http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/11859/o-raio-dos-pobres

Ensino (meio) superior

Acesso ao Ensino Superior

“…o presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), Joaquim Mourato, saudou a decisão de “finalmente” ser aprovado em Conselho de Ministros o diploma que vai definir as regras de funcionamento dos novos cursos superiores, que terão a duração de apenas dois anos.

Neste momento, sabe-se que além das licenciaturas, mestrados e doutoramentos, no próximo ano letivo deverá haver a possibilidade de estudar para um novo grau académico: o de Técnico Superior Profissional, que é uma “espécie de meia licenciatura”, exemplificou o secretário de estado.

Fonte: http://www.noticiasaominuto.com/pais/168686/novos-cursos-superiores-de-dois-anos-aprovados-quinta-feira#.UvBS8_b4_V0

 

A ideia a reter aqui é de uma beleza sui generis: “a meia licenciatura”. É assim definida por um secretário de estado. Está-se mesmo a ver que pensou muito sobre a coisa. Temos portanto uma pessoa meia preparada? Ou apenas com o conhecimento essencial, e dispensa-se as disciplinas que lá estavam a mais, apenas para cumprir mais um ano? No meu tempo era 4 os anos a cumprir, hoje em dia poderia tirar duas. Fazendo bem as contas, devo ter uma equivalência a um doutoramento na próxima reestruturação curricular. Por essa altura, a licenciatura terá um ano e terá o nome de “coiso mais alto”. Uma espécie de ode à ereção, na medida em que o ensino cada vez mais se assemelha a uma punheta mal batida.

Olhando para trás, o meu curso necessitaria de 4 anos e todas as disciplinas que frequentei? Talvez não. Poderiam, isso sim, ser substituídas por outras bem mais relevantes para o mercado para o qual fui lançado. Sempre se discutiu uma disciplina que seria bastante útil: Impostos e Segurança Social. Ou até mesmo Direitos e Deveres do Trabalhador.

Mas isso seria contraproducente, porque acabaria por munir os futuros trabalhadores de conhecimentos algo perigosos para a máquina fiscal. A ignorância é uma arma, e é cada vez mais utilizada para domar as próximas gerações. “Vamos mantê-los com rédea curta e palas nos olhos”, pensam os governantes, presentes e futuros.

Será que a licenciatura em medicina verá uma redução? É que médicos são necessários, e sempre se passa à frente aquela parte chata dos livros, do conhecimento, sabedoria. Valha-nos a Santa, que blasfémia.

Que se foda o ensino. Que se foda a educação. Que se foda Portugal.

Depois queixem-se que vos dói o cu!