Uberices

A Uber é a revolução que entra em choque com o tradicionalismo ou modelos instituídos há muito carregados de pó com cheiro a mofo. Não venho aqui defender que uma empresa estrangeira chegue aqui e atue como quiser, para isso já temos os chineses que são muito apaparicados e demais cidadãos estrangeiros com enormes benefícios fiscais, que um comerciante português não tem. Também gostava de abrir um negócio e ficar isento de impostos durante 5 anos, mas infelizmente sou português. É fodido. Mas adiante.

Os taxistas estão a fazer o que muitos comerciantes e empresários não fazem: estão a defender o seu negócio. Infelizmente tem como mote, que a melhor defesa é um ataque, e aí é que dão cabo de tudo. Em vez de protestos bem pensados, de propor uma implantação de semelhantes negócios de forma regrada, estes grunhos da bandeirada resolvem resolver os assuntos pelas próprias mãos. Podiamos esperar que o resolvessem pelo próprio cerebro, mas já sabemos que isso nunca vai acontecer, nem mesmo juntando os cerebros de vários. A matemática dos neurónios não os assiste.

Invocam moralidade, legalidade, justiça, quando eles próprios atropelam essas palavras várias vezes ao dia, ao seguir tranquilamente pela faixa do bus, ao dar voltas maiores do que necessárias, fazer o tour aos estrangeiros e por aí fora.

No entanto, devo defender a minha ideia inicial: uma empresa, por muito boa que seja, por muitas boas práticas que venha implementar num setor bafiento, deve também ela ser regulada e sujeita a leis semelhantes. A Uber tem que se adaptar ao mercado; os taxistas também, até porque apesar de parecer à luz dos comportamentos de vários taxistas, já passamos a fase do Cro-Magnon e até já evoluimos um bocadinho. Eu sei que é chato tomar banho todos os dias, e até lavar os carros e ter atenção ao cliente, mas faz parte. E colocar pinheiros com cheiro não equivale a lavar o carro: não somos franceses que nos limitamos a pôr perfume para disfarçar.

Agora que reparo que fiz vários comentários xenófobos, sinto que posso tirar a licença para conduzir um taxi. Estou pronto.

Confortavelmente desconfortável

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Ah, os taxistas… aqueles que deram origem à expressão “mal necessário”. Maldizentes por natureza, apenas não dizem mal da sua própria condução. O resto é uma desgraça sem fim.

Admiro os taxistas na medida em que são os únicos transportes públicos que muito raramente estão de greve. Mesmo com sucessivos aumentos dos combustiveis, nunca bufam em conjunto, nunca desligam o taximetro. Alguém se lembra de uma greve? É certo que existiram, mas por cada colega de greve, o negócio cresce para os outros, e aí é cada um por si. Não compensa fazê-la. E o que compensa mesmo é quando o metro ou os autocarros estão de greve, aí é um fartote. Devem ser dos poucos que agradecem o jeitinho do protesto alheio. Disso nunca dizem mal.

Cada vez que tenho que apanhar um taxi, mal entro fico logo mal disposto. Não é o cheiro, calma. É aquele número inicial: €3.25 (depois das 21h, passa a €3.90… uma espécie de bar com preços de esplanada). Até dói. Mas para atenuar a minha dor, tenho um individuo que vai sará-la com as dores do mundo, com o seu sofrimento, e talvez assim o que me aflige não seja tão grave como pensei. Geralmente o silêncio é quebrado por um suspiro, e o tema, lançado pela actualidade. Com sorte, não aconteceu nada no mundo da bola, e a conversa é só sobre os chulos do governo. E com muita sorte, não haverá espaço à conversa, mas serei espectador de um monólogo, no qual farei os parágrafos com palavras como “pois”, “hum hum”, “uma vergonha”, “é o que é”.

Mas seja qual for a maldizência, posso contar sempre com buzinadelas e rabujices sobre a condução dos outros, mesmo sendo eu que vou colado ao assento com a cueca já borrada das 7 transgressões graves entretanto ocorridas. Quando não buzina em andamento, o taxista gosta de ser o Lucky Luke desse faroeste que são as ruas citadinas, e é o que tem o dedo mais rápido no que diz respeito a semáforos. Mal cai o verde, já disparou a corneta para avisar todos desse grandioso evento. Posso afirmar que já fui passageiro de um motorista que buzinava sem razão absolutamente nenhuma, mais parecia um tique nervoso.

Já com a sinalização de mudança de direcção (também conhecidos por piscas), o motorista de praça tem o dedo dormente. Custa-lhe dizer para onde vai. Ou estarei a ser injusto, e no final de contas, o nosso amigo é na verdade um adepto da surpresa. Talvez seja poupadinho, que estamos em crise e os picas custam os olhos da cara, que a avaliar pela condução de muitos, não investem muito na visão.

O que a mim me deixa estrábico, é quando numa viagem, mudo de zona. Aí sim, o taximetro torna-se num cronometro imparável e começo a suar em bica, quando penso na distância que ainda falta percorrer até ao destino. Para aqueles que sempre tiveram medo de ser assaltados, mas querem ter essa experiência num ambiente controlado e direito a um número infinito de odores, fica a recomendação.

Em jeito de remate, não posso deixar de dizer que nem todos são assim.

E julgo mesmo que um taxista que leia isto, acreditará que estou a falar dos outros, e não de si. Pois.