Salvem os caracóis

Às vezes não se pensa à frente, ignora-se o impacto real na ilusão do impacto esperado. É chamado o “tiro no pé”, “erro de casting” e quem sabe, no futuro, um verdadeiro “salvem os caracóis”.

Antes de prosseguir, gostaria de dizer que acho que há muitas campanhas de sensibilização sobre o consumo de animais que faz todo o sentido. Regra geral, esses animais vivem em condições que descreveriamos com desumanas, se fosssem humanos a sofrer dessas mesmas condições, e resultam de sociedades com consumos desnecessários de animais (vêm como sou fofinho, não disse “produto animal”, que é a expressão muito usada para nos referirmos a um ser que apenas serve para nosso consumo: um produto). Mas adiante.

Assim que vi a campanha numa rede social, pensei de imediato: que estupidez… Como é que estas pessoas conseguem ser tão estúpidas ao ponto de lançar uma campanha que tem tudo para ser ridicularizada? Eu percebo a premissa da campanha e a sua razão, e até o seu porque foi lançada nesta altura. Mas, é tão fácil (como foi e ainda é) virar uma perfeita anedota em menos de nada. Parece-me óbvio. Se calhar tinham-se saido melhor começando pelas lagostas. Eu sei, é um tema batido, mas sensibiliza muito mais, e como grande parte das pessoas não tem dinherio para lagosta, pelo menos teriam o apoio do povo (a inveja também é uma arma). Daí poderiam ir diminuindo aos poucos o tamanho dos seres a ser defendidos da opressão humana. É mais fácil defender os grandes, e depois os mais pequenos. Nunca matei um pássaro, mas tenho as mãos encharcadas em sangue de mosquitos. Pensando bem, em sangue de vítimas de mosquitos, essas safados.

Se por um lado temos campanhas para acabar com a crueldade com os animais, com argumentos fortes (animais que vivem sem condições, em sofrimento e stress permanente, etc), que poderiam sensibilizar as pessoas; por outro temos a dos caracóis, que se apresenta como uma gigante comédia, alvo fácil de gozo.

Agora o problema de fazer um “Salvem os caracóis”, é que a próxima campanha do género (por exemplo, um Salvem os Golfinhos), poderá ser feita ainda com o eco desta última, podendo o gozo ser transversal às campanhas futuras e mesmo a outras que estejam a decorrer. Além disso, tocaram num petisco típico que imensa gente adora e espera bastante para poder saboreá-lo. Pessoalmente, acho o petisco nojento, mas isso sou eu. É fácil dizer que as touradas são um espetáculo horrendo, porque além dos argumentos óbvios, tem cada vez menos interessados. E quanto menos resistência, maior a possibilidade de vitória. Isso não acontece com os nossos amiguinhos ranhosos e casca frágil, que são adorados particularmente quando servidos num pires.

Esta malta precisa de jogar um pouco de xadrez: aprender a lutar com 3 jogadas de antecedência, compreender que hoje em dia é preciso pensar e planear antes de agir, precisamente porque a palavra errada, a imagem tonta, a ideia falhada, tem repercussões que podem ir além do espectável, ou mesmo do pior cenário imaginado.

Mas poderia ser pior: podiam ter o apoio ou testemunho do Gustavo Santos. Na verdade, ainda vão a tempo de dar esse tiro no pé (ou, fazer um Salvem os caracóis).