Quando era pequeno, queria ser lixeiro

Lembro-me perfeitamente de um dia dizer, numa aula na escola: “quando for grande quero ser lixeiro”.

Despertou imediatamente todas as gargalhadas dos meus colegas e professor. Parece-me óbvio: ser lixeiro? que raio de coisa para se dizer. É uma profissão de último reduto, pior que ir trabalhar nas obras, ou na agricultura. Apanhar o lixo dos outros, todos os dias. Levar com aquele cheiro durante todo o dia (ou noite) de trabalho, por opção. Que estupidez, não é? Isso é aquele trabalho para quem não tem mais nada.

Não me recordo porque o disse na altura, mas posso dizer o que significa para mim hoje em dia. Tratar do lixo das pessoas, daquilo que é descartado e com que não se quer lidar em nossa casa. Acho um trabalho  louvável, mesmo que quem o faça, o faça porque era uma oportunidade disponível. Não interessa. É necessário e importante.

Então e se olharmos para esta profissão como olhamos para outra que remove algo com que não queremos lidar e apenas queremos que passe rapidamente?

Vamos lá espicaçar: não olhamos, por exemplo, a doença como um lixo com o qual não queremos lidar? Algo que está a mais, no nosso corpo perfeito, e deve ser eliminado? Não serão os lixeiros um tratamento para uma sociedade adoecida pela criação de lixo? De acumulação desnecessária? De excesso?

O problema é que esse lixo fica. Mesmo seguindo a ideia romântica da reciclagem, a grande parte dele fica. Não passam de materiais transformados, que depois tem a vida que lhes atribuímos. O plástico é um bom exemplo, mas não chega. faz demasiado parte do nosso quotidiano. Melhor exemplo disso, é Chernobyl. Como a nossa ambição enquanto seres humanos contaminou decisivamente uma área.

Isso é apenas um exemplo mais forte. Mas mais pequeno exemplo (?) é visitar uma lixeira. Ou várias, porque não? E aí, teremos uma (pequena, minúscula) noção do nosso impacto no mundo? Será isso suficiente para nos apercebermos? Não creio. Se calhar pensamos nisso no dia, durante uma semana, e depois sucumbimos à rotina anterior. Contra mim falo.

Mas se não existir uma vontade de enfrentar o problema, nunca o conseguiremos resolver.

Há uns anos atrás dizer: “quero ser cozinheiro” era algo parvo e pouco ambicioso. Quem sabe, se um dia não vamos todos querer ser lixeiros, à nossa maneira, no nosso dia a dia, na nossa individualidade.

 

Anúncios

O Bono não quer saber

Eu sei, há muito tempo que não escrevo. Possivelmente o próximo artigo será daqui a 2 anos. Nunca se sabe.

A verdade é que dediquei-me a um projeto mais positivo. Poder-se-á dizer que é o oposto deste. E hoje bateu-me esta frase: “O Bono não quer saber”.

É uma característica curiosa em fazer projetos Pro Bono. Ao não atribuir diretamente um valor ao trabalho que fazemos, transformamos esse trabalho numa espécie de brinde rasca, algo que alguém recebeu, mas que não teve que dar nada, para o ter.

E da mesma maneira que é dado, é descartado. Sem ai nem ui. E os únicos lesados são os que deram. Estupidos esses, coitados. Mais valia estar quietos. Com os seus ideais e bonitos conceitos de como o mundo seria melhor se fosse mais generoso.

Meus amigos, ser generoso é bonito, mas em última análise está revestido de uma certa inutilidade aos olhos do outro. Acaba por ser bonito para nós, mas isso perde a magia depois de alguns Pro Bonos, que se tornarem rapidamente em Pro Caralho.

Isto para dizer algo muito simples: acredita em ti, faz o que tens a fazer. No entanto, manda uns quantos foder (e atenção, de uma perspetiva, isso é positivo, pois o sexo é algo bonito) quando isso for necessário. O mundo é uma espiral, como muitas poias, e se não sentes o cheiro a merda, é porque estás envolto nela.

É isto.

Abraço carinhoso

Parece óbvio, mas:

Existe um sem número de conceitos, ideias, regras que parecem ser óbvias, mas que pelos vistos não chegam ao entendimento de todos os seres humanos. Inspirado nesta problemática, segue aqui uma curta lista que dedico aos transportes, que pode parecer óbvio, mas:

– a ciclovia é para bicicletas, e não uma pista colorida para peões ou automóveis;

– os ciclistas tem que obdecer aos mesmo sinais verticais de trânsito, como semáforos por exemplo. Quando ignoram um vermelho, perdem o direito de falar dos imbecis ao volante;

– as bermas não são faixas para motociclistas;

– os motociclistas tem tendência para acreditar que podem fazer ultrapassagens pela direita, mas depois queixam-se quando levam com um carro;

– existem várioas grafismos sobre como fazer uma rotunda, é incrivel que ainda existam pessoas que não entendem. A sério, grafismos são desenhos, mais básico é dificil;

– para se ser taxista, não deveria ser obrigatório ser imbecil, no entanto…

– a faixa da direita é para circular, as outras são para ultrapassar quem se encontra à direita (esta é mais simples que as rotundas, porque não tem que andar às voltas sobre a questão);

– passeios são para peões. Esta então é básica. Se não encontra lugar para estacionar, tente mais longe e use as pernas;

– Lugares reservados a deficientes não são aptos para: idiotas, imbecis, bestas e filhos da puta (entre outros): Parem de deixar lá o carro “só durante 5 minutos”.

Uberices

A Uber é a revolução que entra em choque com o tradicionalismo ou modelos instituídos há muito carregados de pó com cheiro a mofo. Não venho aqui defender que uma empresa estrangeira chegue aqui e atue como quiser, para isso já temos os chineses que são muito apaparicados e demais cidadãos estrangeiros com enormes benefícios fiscais, que um comerciante português não tem. Também gostava de abrir um negócio e ficar isento de impostos durante 5 anos, mas infelizmente sou português. É fodido. Mas adiante.

Os taxistas estão a fazer o que muitos comerciantes e empresários não fazem: estão a defender o seu negócio. Infelizmente tem como mote, que a melhor defesa é um ataque, e aí é que dão cabo de tudo. Em vez de protestos bem pensados, de propor uma implantação de semelhantes negócios de forma regrada, estes grunhos da bandeirada resolvem resolver os assuntos pelas próprias mãos. Podiamos esperar que o resolvessem pelo próprio cerebro, mas já sabemos que isso nunca vai acontecer, nem mesmo juntando os cerebros de vários. A matemática dos neurónios não os assiste.

Invocam moralidade, legalidade, justiça, quando eles próprios atropelam essas palavras várias vezes ao dia, ao seguir tranquilamente pela faixa do bus, ao dar voltas maiores do que necessárias, fazer o tour aos estrangeiros e por aí fora.

No entanto, devo defender a minha ideia inicial: uma empresa, por muito boa que seja, por muitas boas práticas que venha implementar num setor bafiento, deve também ela ser regulada e sujeita a leis semelhantes. A Uber tem que se adaptar ao mercado; os taxistas também, até porque apesar de parecer à luz dos comportamentos de vários taxistas, já passamos a fase do Cro-Magnon e até já evoluimos um bocadinho. Eu sei que é chato tomar banho todos os dias, e até lavar os carros e ter atenção ao cliente, mas faz parte. E colocar pinheiros com cheiro não equivale a lavar o carro: não somos franceses que nos limitamos a pôr perfume para disfarçar.

Agora que reparo que fiz vários comentários xenófobos, sinto que posso tirar a licença para conduzir um taxi. Estou pronto.

Este país não é para risos

Está bem patente na nossa cultura que humor não é connosco. Temos humoristas? Temos, uns melhores, outros piores. Temos anedotas? Sim, confere. No entanto, nem tudo é para rir. Aliás, se for um pouco além do humor dos batanetes, já estamos numa barreira perigosa.

Humor negro, nem morto.

Brincar com a religião? Sacrilégio!

Piadas com homosexuais? Metem-nas no cu.

Este país acarinha os humoristas básicos, aqueles que fazem piadolas gerais, sem ofender ninguém, num registo de humor bem levezinho, à semelhança das mentalidades. Se é para dizer piadas, e mesmo ofender, aquele político ladrão, tudo se permite. Desde sacana a filho da puta, não há boca que se pasme, ele bem merece. E a sua mãe, mulher, filhos… tudo no mesmo saco!

Agora, se se fazem críticas, utilizando o humor, com coisas sérias como o cancro ou a igreja, temos o caldo entornado. Com isso não se brinca, não é? Pior que tudo, seria fazer piadas de cancro num funeral de alguém falecido da dita doença. Aí era matar essas pessoas. Isto porque há coisas sagradas…

Para uns, rir é o melhor remédio, para outros, quimioterapia…

Aprendam a rir, isso sim. Do bom, do mau e dos vilões. Todo o momento negro tem um momento leve, todo o momento leve se pode revestir de negro. Se não acham piada, não se riam, procurem outra coisa.

 

 

PAN, para que te quero?

O PAN finalmente conseguiu eleger um deputado. Bravo! Confesso que cheguei a votar no PAN, porque acreditava que seriam uma força política diferenciadora, algo de fresco e realmente revolucionário. Agora que tem assento parlamentar, verifico aquilo que verifiquei quando li o programa que apresentaram nestas eleições.

O PAN significa: Pessoas, Animais e Natureza. Pois bem, seria espectável que as pessoas viessem em primeiro, na medida em que são os elementos com a força da mudança, os que criam as leis e as fazem cumprir. Pois, mas não. O PAN demonstra ser aquilo que sempre foi na realidade (desde a sua anterior denominação: Partidos dos Animais e da Natureza), uma associação sem fins lucrativos de defesa dos animais.

Claro que é positivo que alguém no Parlamento defenda os animais. Tudo lindo. Mas daí a cair no rídiculo, é um passo (ou um trote). Tenho assistido às intervenções do PAN, e creio que os animais estão bem representados, já as pessoas não tem essa sorte. Mas também, é só uma mera palavra numa sigla…

Li agora esta notícia: http://www.record.xl.pt/futebol/nacional/1a-liga/benfica/detalhe/pan-contra-o-voo-da-aguia-vitoria-na-luz-985015.html

Portanto, a conclusão que retiro rapidamente: são contra a domesticação de animais selvagens. Acredito que estão neste momento, todos os PanFans a soltar os seus cães e gatos e demais animais “domésticos”, que outrora foram selvagens, porque isso não se faz. Esperem amanhã cavalos a galopar pela A1, porcos em vara pela A23, pois estes selvagens foram domesticados e devem ser liberados.

O PAN está mesmo a mostrar o que é: um vazio humano, um partido Bestial. Coiso.

Salvem os caracóis

Às vezes não se pensa à frente, ignora-se o impacto real na ilusão do impacto esperado. É chamado o “tiro no pé”, “erro de casting” e quem sabe, no futuro, um verdadeiro “salvem os caracóis”.

Antes de prosseguir, gostaria de dizer que acho que há muitas campanhas de sensibilização sobre o consumo de animais que faz todo o sentido. Regra geral, esses animais vivem em condições que descreveriamos com desumanas, se fosssem humanos a sofrer dessas mesmas condições, e resultam de sociedades com consumos desnecessários de animais (vêm como sou fofinho, não disse “produto animal”, que é a expressão muito usada para nos referirmos a um ser que apenas serve para nosso consumo: um produto). Mas adiante.

Assim que vi a campanha numa rede social, pensei de imediato: que estupidez… Como é que estas pessoas conseguem ser tão estúpidas ao ponto de lançar uma campanha que tem tudo para ser ridicularizada? Eu percebo a premissa da campanha e a sua razão, e até o seu porque foi lançada nesta altura. Mas, é tão fácil (como foi e ainda é) virar uma perfeita anedota em menos de nada. Parece-me óbvio. Se calhar tinham-se saido melhor começando pelas lagostas. Eu sei, é um tema batido, mas sensibiliza muito mais, e como grande parte das pessoas não tem dinherio para lagosta, pelo menos teriam o apoio do povo (a inveja também é uma arma). Daí poderiam ir diminuindo aos poucos o tamanho dos seres a ser defendidos da opressão humana. É mais fácil defender os grandes, e depois os mais pequenos. Nunca matei um pássaro, mas tenho as mãos encharcadas em sangue de mosquitos. Pensando bem, em sangue de vítimas de mosquitos, essas safados.

Se por um lado temos campanhas para acabar com a crueldade com os animais, com argumentos fortes (animais que vivem sem condições, em sofrimento e stress permanente, etc), que poderiam sensibilizar as pessoas; por outro temos a dos caracóis, que se apresenta como uma gigante comédia, alvo fácil de gozo.

Agora o problema de fazer um “Salvem os caracóis”, é que a próxima campanha do género (por exemplo, um Salvem os Golfinhos), poderá ser feita ainda com o eco desta última, podendo o gozo ser transversal às campanhas futuras e mesmo a outras que estejam a decorrer. Além disso, tocaram num petisco típico que imensa gente adora e espera bastante para poder saboreá-lo. Pessoalmente, acho o petisco nojento, mas isso sou eu. É fácil dizer que as touradas são um espetáculo horrendo, porque além dos argumentos óbvios, tem cada vez menos interessados. E quanto menos resistência, maior a possibilidade de vitória. Isso não acontece com os nossos amiguinhos ranhosos e casca frágil, que são adorados particularmente quando servidos num pires.

Esta malta precisa de jogar um pouco de xadrez: aprender a lutar com 3 jogadas de antecedência, compreender que hoje em dia é preciso pensar e planear antes de agir, precisamente porque a palavra errada, a imagem tonta, a ideia falhada, tem repercussões que podem ir além do espectável, ou mesmo do pior cenário imaginado.

Mas poderia ser pior: podiam ter o apoio ou testemunho do Gustavo Santos. Na verdade, ainda vão a tempo de dar esse tiro no pé (ou, fazer um Salvem os caracóis).