A queda de um banjo (e outras filosofias)

Muita notícia tem corrido sobre o caso da prisão de José Sócrates. Bem, se interpretarmos a palavras “notícia” como estando nela pressuposto algum tipo de informação, nesse caso não tem havido muitas. É como ouvir um banjo tocar depois de ter caido e ter ficado seriamente danificado (é, foi só para justificar a merda do título, aprendi com a CMTV).

Antes de começar a escrever este artigo, confesso que fui defecar (e sim, lavei as mãos), e fiquei na dúvida se tal acto resultou de algo que comi, ou se da acumulação de matéria tóxica resultante de sobre-exposição a telejornais.

Não é chocante que um político seja condenado e consequantemente preso… é talvez surpreendente, tendo em conta o sistema em que vivemos. É algo raro? É pois, infelizmente e tendo em conta todos os casos que surgem nos jornais e não chegam sequer à rua onde fica o tribunal.

Mas adiante, porque o meu objectivo não é falar de para quem as luzes apontam, mas sobre quem aponta as luzes e da forma que o faz. Ao ver qualquer telejornal, em particular os que pertecem a canis de “notícias”, é triste verificar como é vazio o espectro informativo em Portugal. É preferível ter comentadores a falar sobre nada, câmaras apontadas para coisa nenhuma, filmar carros que poderiam ser o do vizinho, a sair à pressa da garagem porque tem que ir comprar tabaco à bomba…

Há pouco tempo, contamos com o infame surto da legionella de Vila Franca de Xira, onde curiosamente não havia ninguém que fosse de Vila Franca e estivesse infectado. Curiosamente, a grande maioria das pessoas associou o surto à cidade em questão. Mais do que qualquer doença ou virus, tanto a estupidez como a ignorância propagam-se a uma velocidade estonteante, especialmente quando aqueles que dizem ser os nossos agentes informativos, despejam alarmismo e diretos à pressão, sob o ímpeto de ser o primeiro a (des)informar. No meu da confusão, está a verdade. Mas esta vende pouco, nem sequer chega a ser muito interessante, e se observarmos bem, dá para resumir em pouco tempo, coisa que não interessa nada a canais que debitam “informações” 24h. Imaginem só a quantidade de informações realmente relevantes que estão inaudíveis à conta deste ruído.

Em nome das audiências, vale tudo, excepto a ética, a moral e o código deontológico dos jornalistas. Ficam aqui umas passagens desse texto há muito esquecido:

Código Deontológico do Jornalista


1. O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.

2. O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo e considerar a acusação sem provas e o plágio como graves faltas profissionais.

3. O jornalista deve lutar contra as restrições no acesso às fontes de informação e as tentativas de limitar a liberdade de expressão e o direito de informar. É obrigação do jornalista divulgar as ofensas a estes direitos.

4. O jornalista deve utilizar meios legais para obter informações, imagens ou documentos e proibir-se de abusar da boa-fé de quem quer que seja. A identificação como jornalista é a regra e outros processos só podem justificar-se por razões de incontestável interesse público.

5. O jornalista deve assumir a responsabilidade por todos os seus trabalhos e actos profissionais, assim como promover a pronta rectificação das informações que se revelem inexactas ou falsas. O jornalista deve também recusar actos que violentem a sua consciência.

6. O jornalista deve usar como critério fundamental a identificação das fontes. O jornalista não deve revelar, mesmo em juízo, as suas fontes confidenciais de informação, nem desrespeitar os compromissos assumidos, excepto se o tentarem usar para canalizar informações falsas. As opiniões devem ser sempre atribuídas.

7. O jornalista deve salvaguardar a presunção de inocência dos arguidos até a sentença transitar em julgado. O jornalista não deve identificar, directa ou indirectamente, as vítimas de crimes sexuais e os delinquentes menores de idade, assim como deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor.

8. O jornalista deve rejeitar o tratamento discriminatório das pessoas em função da cor, raça, credos, nacionalidade, ou sexo.

9. O jornalista deve respeitar a privacidade dos cidadãos excepto quando estiver em causa o interesse público ou a conduta do indivíduo contradiga, manifestamente, valores e princípios que publicamente defende. O jornalista obriga-se, antes de recolher declarações e imagens, a atender às condições de serenidade, liberdade e responsabilidade das pessoas envolvidas.

10. O jornalista deve recusar funções, tarefas e benefícios susceptíveis de comprometer o seu estatuto de independência e a sua integridade profissional. O jornalista não deve valer-se da sua condição profissional para noticiar assuntos em que tenha interesse.

Aprovado em 4 de Maio de 1993

Fonte: http://static.publico.pt/nos/livro_estilo/29-codigo-d.html