Os vencidos convencidos que são lutadores

Lembram-se daquelas manifestações pouco tempo depois da vinda da Troika? Aquelas que enchiam avenidas, mobilizavam as pessoas… aquelas que eram resultado de um descontentamento tal que levavam realmente pessoas à rua? Lembram-se de como fomos, ainda que por um momento, revoltosos?

Pois bem, isso foi uma fase, algo comparável às coisas próprias dos adolescentes, mas que pelos vistos passa com o tempo. E neste caso, temos idade de cão, pois esta adolescência e fase parva passou a correr. Para isso bastou que não nos dessem muita atenção e desvalorizassem os gritos. Bastou apenas isso. E não sendo ouvidos, cansamo-nos de levantar a voz, e remetemo-nos ao silêncio, essa conformidade que nos poupa a voz mas não o corpo.

Vejo um exercito de revolucionários online, um batalhão de críticos em tudo o que é secção de comentários de jornais e artigos de opinião. Existe uma rebeldia e uma ousadia no anonimato. Mas levantar a real peida é que é mais complicado… abdicar do que mais que 10mins é demasiado (se é que escrever “isto é uma vergonha”, “chulos de merda!”, “eu é que não pago” leve mais de 10mins a ser escrito).

Mas não é de admirar… se nem para votar 60% se dá ao trabalho, quanto mais passar um dia a gritar palavras de ordem…

Mas claro que há os extremos, os que ridicularizam as greves e os protestos… já não consigo levar a CGTP a sério desde Mil Novencentos e qualquer coisa, mas ultimamente é apenas tonto. O sector público não ajuda, com greves a torto e a direito (que agora já pouco se fazem notar, é certo, mas que surtiram o efeito que descrevo nos ultimos 3 anos). E há coisa mais estúpida que uma greve em que não se vê ninguém nas ruas? E que não se vê ninguém a protestar em lado nenhum? É a chamada greve da praia… Por exemplo, em todas as greves do metro, não me recordo de uma mobilização das criaturas em questão. Apenas tinha uma ideia das reivindicações pelos jornais, porque vê-los nem pensar. Deviam estar a protestar nos tuneis…

No fundo, é aquilo que fazemos: protestamos nos túneis do ciberespaço, que ganham muitos likes, são muito giros mas não têm qualquer efeito prático.

Nos entretantos, uns morrem de fome, outros morrem sós em casa, outros sós aos olhos de todos. E quando alguém salta para uma linha de comboio e atrasa a viagem, uma criatura diz a outra: “pelo menos podia ter feito à hora de almoço, não me atrasava a vida”. História verdadeira, que como a própria realidade é triste.

 

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David, Golias e Deus (ou Israel, Palestina e EUA)

Um dia Israel foi David, e a palestina era Golias. Mas o gigante deixou-se levar pelo pequeno rapaz. Este pequeno rapaz não queria defender a sua aldeia e o seu povo, mas sim aniquilar o gigante apenas porque ocupava demasiado espaço, e o pequeno rapaz não quer partilhar algo que julga seu.

A história é complexa, e digna de estudo exaustivo. No entanto Deus está do lado de David, o pequeno rapaz demoníaco que continua convencido que mata gigantes, quando na realidade pisa tudo e todos sem olhar a meios.

Os interesses de Deus, a ele dizem respeito, mas está envolvido nesta luta que se assemelha quase a um continuado ataque, pois de luta tem pouco, visto que o gigante já mirrou, e será neste momento mais um David que um Golias.

A cada nova notícia sobre o assunto, cada vez mais me vem à memória aquele momento caricato do 11 de Setembro. Lembram-se? Durante meses a palavra de ordem foi “terroristas”, essa entidade abstrata. Em nome de uma retaliação contra um inimigo ambiguo, destruiram-se (pelo menos) dois países: Afeganistão e Iraque. Um ataque resultante de uma ofensiva que não se sabe bem de onde veio, mas cujos propósitos eram bem claros: justificar aos olhos da opinião pública mundial, uma ofensiva contra países árabes.  Foi um golpe de mestre para derrubar Saddam Hussein (que não era flor nenhuma, é certo) e erguer postos de exploração de petróleo.

Da mesma maneira, Israel justifica as suas mais recentes barbaridades por estar a ser alvo do Hamas, os terroristas… já encontraram semelhanças? Pois bem, isto é o ser humano no seu nível mais baixo, retardado e neandertal. Se Deus está no céu, sem dúvida que Satanás habita cá em baixo, no coração de alguns homens sedentos de poder. David é esse homem agora, sedento de poder, poder que a população lhe dá, seja com o apoio direto, seja com displicência pelas suas acções. E Golias? Esse gigante não é mais do que uma atração de circo, que todos vêm mas tem pena. Coitadinho do gigante, a levar porrada de um puto. E Deus, continua cruel como sempre foi, ao ponto de matar os seus de forma a ter legitimidade para matar os outros.

Podia ser folclore…

Sobre a caução

A caução é aquela coisa que não se percebe muito bem quando inserida no conceito de justiça. Que me peçam caução quando quero arrendar uma casa, até compreendo. Pedem-me para dar um valor adiantado, caso decida partir a casa toda, ou sair de repente sem dar satisfações. É uma segurança.

Mas quando a caução surge para alguém que é preso, sair em liberdade, isso é que me faz alguma confusão. Talvez não faça a mais ninguém, até porque estamos habituados a ver em filmes e séries, aqueles injustiçados a quem pagam a caução, e que podem assim perseguir o verdadeiro criminoso de forma a limpar o seu bom nome e demonstrar que afinal, a justiça foi feita.

No entanto, a mensagem que é enviada é muito mais simples: mesmo que sejas acusado de um crime e preso, tens sempre uma saída: dinheiro. E nem precisa de ser um suborno… nem chega a ser uma multa (não fosse o alegado criminoso fugir da prisão, apenas para levar uma multazinha pelo seu comportamento maroto). A caução é declaradamente uma maneira de sair da prisão, da forma mais legal possível, desde que se tenha dinheiro. Ou seja, um escape para os ricos, uma utopia para os pobres.

Nunca compreendi a sua razão, pelo menos de um ponto de vista da justiça e mesmo da lógica. Uma coisa é certa: desde que tenhas dinheiro, podes sair à vontade, mesmo com sangue nas mãos e dinheiro sujo no bolso. E quem tem uma Dona Inércia, tem tudo.

BES para que te quero

Há já algum tempo que este cozido está ao lume, mas apenas recentemente começou a ferver. Um dos maiores bancos portugueses com vislumbres de falência, tal tem sido os prejuízos anunciados.

O BES já veio tranquilizar os depositantes que está tudo bem. Sem stress, na pior das hipóteses o nome passará a ser BIC, depois de vendido (ou antes, oferecido) como foi o BPN. Porque quando um banco vai ao ar, o estado trata do prejuizo, que é como dizer: pagamos todos, depositantes ou não.

Claro que uma falência de um banco é por si só extremamente danosa para a economia de um país. Sendo um dos maiores bancos, seria mergulhar ainda mais fundo, como se já não tivessemos batido no chão há muito tempo, e não bastanto, continuamos a cavar. Não por vontade própria, mas porque nos impingiram as pás e nos mantêm bem mansos com grilhões bem elaborados.

Entretanto o GES (Grupo Espirito Santo) “equaciona entrada do Estado venezuelano para salvar o GES”. Isto soa aquelas escapadinhas da “Vida é Bela”, mas neste caso em vez de 3 dias, deverá ser de uns quantos anos. Há quem lhe chame “fuga”, mas eu compreendo. A Família Espirito Santo está cansada de brincar ao pobrezinhos e prepara-se para ir brincar aos criminososinhos enriquecidos.

Não é à toa que Ricardo Salgado quer abandonar o barco. Já chegue, e quando um negócio começa a dar muitos negativos, há que fazer um saldo positivo do que se amealhou e curtir a reforma. Imagino que possa ser no Uruguai. Já lá abriram um escritório, pode ser que venha com casa de férias no pacote. Talvez tenham feito um crédito habitação no BES para fazer a compra, ou talvez até seja daqueles lapsos de memória que fazem com que Ricardo Salgado passe a vida a esquecer-se de pagar uns milhões em IRS, coisa que o Estado perdoa de forma leviana. Tanta sorte não tem o comum contribuinte, que se deixa passar semelhante data, enfrenta desde multas a penhoras.

No meio disto tudo, a agência de rating Standard & Poor’s comunicou que reviu o outlook do BES e do Banco Espírito Santo de Investimento (BESI) de “estável” para negativo”.

Embora não deseje que o BES entre em falência pelas razões que já referi, e porque acredito que depois do BPN, dificilmente o Estado deixará que outro banco entre em falência… mas não deixo de me espantar com o bonecos do poder, e não meto as minhas mãos no fogo.

De momento a única solução à vista parecer ser rezar… talvez ao Espirito Santo?