IRS – os últimos dias

À semelhança dos incêndios nos meses de Julho a Agosto, outra certeza portuguesa é a de que, no final de um prazo de entrega de IRS, os serviços entopem.

Acabo de ouvir as declarações do Sr. António Domingues de Azevedo, bastonário da CTOC (Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas). Diz o senhor que o governo conhece o problema e teima e não resolvê-lo, talvez por isso resultar em futuras multas aos contribuintes que não entregam a declaração do IRS a tempo.

Realmente existe pelo menos um problema: as pessoas tem um mês (sim, 30 dias, porque podem fazer a declaração ao fim de semana e entregar num dia de semana, por exemplo) para preencher e entregar a dita declação. Portanto crê o Sr. Domingues de Azevedo que 30 dias não chegam. Ora bem, este senhor é, digamos, uma besta. E representa um largo número de bestas que povoam este país. Longe de mim defender um governo no qual não votei e não acredito; longe de mim defender o sistema de taxas e impostos presentes neste país; mas neste caso, temos a representação da mentalidade desse espécime que é o Tuga: que se queixa de uma coisa que é também consequência da sua negligência e mesmo estupidez.

Se o sistema entope no final do prazo (faltam entregar sensivelmente 500mil declarações), é porque uma larga fatia da população deixa tudo para o final. Depois podem-se queixar dos serviços não funcionarem? Podem dizer que isto é uma vergonha? Não. Podem é tentar deixar de ser bestas, ou como li num artigo muito bem escrito e cheio de ironia, podem deixar de ser pobres:

“O Raio dos Pobres” – Jornal Público

http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/11859/o-raio-dos-pobres

Sobre a cegueira

Hoje saí de casa apenas para me deparar, logo pela fresquinha, com uma situação caricata. Numa esquina, num passeio largo, estava um camião de obras. Como de costume, para fazer uma coisa simples (aparentemente), estavam lá seis trabalhadores e um polícia (vulgo, estátua fardada). Sim, é injusto para um polícia usar o seu tempo para observar 6 pessoas a colocar alcatrão no chão, mas à falta de entertenimento, poderia sempre ir falar com o seu colega que está sempre à porta do Mini Preço e olhar para ontem.

Mas adiante. Estou prestes a chegar ao local, quando sai um cego acompanhado de uma senhora do prédio ao lado de referido cenário. Ao sentir o camião no passeio, o senhor começou logo a protestar: “isto vai ficar aqui, é?” (e outras coisas que mal ouvi). E pronto, passou o cego por parvo, com 9 pessoas a ver o seu descontentamento e a ouvir o ridiculo que era o seu protesto. Lá explicaram e acalmaram o senhor. No entanto, isto é o reflexo de algo maior. Se o cego passou por parvo, porque se passou com uma situação que era justificada, será muito provavelmente porque já levou com muito parvos, idiotas e cretinos que estacionam em passeios e bloqueiam completamente (ou em grande parte) a passagem dos peões. O cego conhece bem a obra dos idiotas do dia a dia, foi e é vítima da estupidez daqueles que veem bem, mas tem vista curta. Daqueles que só querem estacionar, e são cegos ao incomodo que causam aos outros.

O cego não tem culpa, reage da mesma maneira porque não vê quem são os idiotas de serviço. E paga o justo pelos pecadores.

Os cegos que veem são assim mesmo. Conseguem ver tudo à sua volta, exceto as suas ações perante os outros. E por isso refiro um desses exemplos, passado dois dias antes.

Num cruzamento, como acontece tantas vezes, os carros passaram tarde no semáforo, ou contavam que a fila à sua frente avançasse, e ficaram a bloquear uma faixa de rodagem, aquela em que o sinal ficaria verde em breve.  Resultado: tornaram intransitável o trânsito para aqueles que agora poderiam avançar, não tivessem carros como obstáculos a tapar o caminho. Um senhor que estava no carro a bloquear a faixa, protestava a altos berros com os condutores da frente, que estavam impedidos de avançar pelo clássico sinal vermelho.

O senhor berrava, protestava, atribuindo a culpa a todos os que estavam à sua frente. Mas quem estava mal era ele. O errado era ele, o que clamava ser injustiçado.

Somo todos um pouco assim, cegos pontuais, idiotas do momento. E o pior cego, é o que não quer ver. É o que não vê que a culpa é sua, que o idiota é ele, e não os outros.